Bedtime

A hora de dormir evita-se até ao limite. A criatividade floresce na hora de empurrar o relógio para trás. Invocam-se os medos do escuro e dos sonhos. Chegam de repente as dores num braço ou na garganta, que não se tinham manifestado antes da hora marcada… a hora de dormir. Até aquele vazio do “não, não tenho mesmo nada para contar”, se preenche de repente com um monte de histórias giras do teu dia. 

Depois de se esgotarem todas as tentativas, quase se esgota a minha paciência e, por vezes, a última palavra do dia acaba por ser mais assertiva e menos doce do que eu gostaria. 

E invariavelmente vou depois contemplar o teu sono sereno, e redimir o momento anterior, com outro “boa noite”, outro beijo, e outro agradecimento ao universo pela benção de vos ter na minha vida.

Antecipo o teu despertar rabugento, que no fundo eu também gosto porque não há nada que eu não ame em ti. Tu e eu com todas os nossos deliciosos defeitos, fazemos parte de um todo que é feito de amor incondicional.

Essa real e incontornável imperfeição de uma família não é muitas vezes retratada em fotografias. A tarefa de ser mãe e pai não se reflete apenas nas belas imagens feitas num estúdio, ou num parque com o sol do final de dia a dourar sorrisos amenos. É também a birra no supermercado, os dramas dos TPC’s, o mau comportamento à mesa e os dramas na hora de ir para a cama.

Sei que não gostas quando te fotografo zangada mas um dia vais querer saber como eras, como éramos, com tudo do melhor e do menos bom que vivemos. 

Há momentos que por serem tão banais, nunca são fotografados. São esses, precisamente esses, os que vão deixar mais saudades.

Por agora, bons sonhos princesa.