My Photography Statement

(scroll for English version please)

Depois de tantos anos a sentir a Fotografia como uma terapia, uma espécie de cura, para mim mesma e para as pessoas que fui fotografando, decido agora que é tempo de escrever e partilhar as ideias que deambulam em mim.

Foi sempre assim para mim: uma cura.

Começa no auto-retrato, experiência importante mas ao mesmo tempo extenuante. Trata-se de um exercício de auto-conhecimento e superação de problemas de auto-confiança que todos temos. O processo terapêutico da visualização das imagens, obriga-nos a refletir sobre o que somos, sobre as coisas que mais gostamos ou mais detestamos em nós, e porquê. Podemos corrigir coisas, como a postura, podemos perceber qual o nosso melhor lado, a nossa melhor expressão, e usar esses fatores em favor da nossa auto-confiança. Mas também podemos passar a estar mais à vontade com o que não gostamos, aceitar e entender que sem isso não seríamos nós, aprender a amar isso também..

O auto-retrato é uma forma de estarmos preparados enquanto humanos e fotógrafos, para captar nos outros a essência que procuramos em nós, colocando a técnica ao serviço da criatividade.

O retrato é o meu trabalho de eleição. Permite-me interagir e conectar com as pessoas. E por isso a cura continua com e para os outros.

Sinto que o meu propósito enquanto ser humano e fotógrafa passa por aplicar essa cura que acredito existir na fotografia aos outros. E através dela contar as suas histórias e melhorar a perceção de si mesmos.

As duas coisas que me atraem, quando idealizo uma ou mais imagens: a possibilidade de contar e imortalizar histórias, transmitindo através delas sentimentos e emoções; a possibilidade de criar imagens belas e ver nelas alguma espécie de poesia.

Tento fazê-lo em todo o tipo de trabalhos, envolvam eles pessoas ou não, independentemente do seu propósito.

Mas o maior desafio é aquele que envolve pessoas, as suas histórias, as suas inseguranças ou ideias. Não é um trabalho fácil porque além da natural angústia do processo criativo, existem outras variáveis delicadas como a vulnerabilidade a que fica sujeito o fotógrafo e o fotografado.

Sendo um trabalho com um objetivo terapêutico e genuíno, tem que haver alinhamento e estarem ambos conectados quanto à definição de belo, quanto à história que querem contar e ao que querem ver refletido nas imagens finais.

E a beleza é apenas uma sensação. Podemos tentar defini-la mas não é um ciclo fechado. A beleza interpreta-se, reinventa-se e nunca se dissocia da história que a envolve, do momento que a carateriza.

Fazer uma sessão fotográfica ou contar a tua história é um ato de celebração de ti mesmo.

Nenhum dinheiro no planeta pode comprar-te um bilhete de volta ao momento em que te encontras agora. A Fotografia é uma forma de parar o tempo e guardar momentos em imagens que podes revisitar ou partilhar mais tarde.

Ensaios Fotográficos:

- “Spotlight” é trazer o melhor de ti, no teu máximo potencial, elevando a tua auto-estima e permitindo que voltes a esse momento sempre que estiveres a ter um mau dia. Sessões fotográficas com possibilidade de aconselhamento de styling e produção (cabelo e make-up)

- “Story” é trazer para as imagens os laços que tens com a vida, com lugares e com quem te rodeia. Sessões fotográficas para celebrar a vida com família, amigos, amigas.

- “Scanning” é um estilo documental de fotografia de família, sem produções, nem poses, só a vida do dia a dia como ela é. Aquela da qual vamos sentir mais falta um dia. Sim, com as camas por fazer, os brinquedos espalhados no chão e os cabelos por pentear.

 

Mais informações e marcações através do meu email :)

Sara

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After so many years experiencing Photography as a therapy, a kind of healing for myself and for the people I have been photographing, I think it’s time to write and share some thoughts about it.

Photography has always worked out as a cure to me.

Beginning with self-portrait, which was always an important experience, though exhausting at the same time. Maybe people see the self-portrait as a kind of narcissism, vanity or stupidity. But it actually is about self-knowledge and overcoming self-confidence issues that we all experience. The therapeutic process of creating and looking back to those images, leads us to reflect on who we are, on the things we love or hate most about ourselves, and why. We can try to fix some of the things we don’t appreciate, like improving our posture, we can realise which is our best side or our best expression, and use these factors in favor of our self-confidence. But it also helps us to get more comfortable with the things we don’t like, accept them and understand that they also make us who we are. Hopefully we can learn to love them too.

Technically and creatively, self-portrait is also a way of being more prepared, as a human being and as a photographer, to capture other people’s essence as we seek in us.

And so portrait is my main thing as a photographer. Mostly because it allows me to interact and connect with people.

And so the cure passes on to others. I feel that my life purpose as a human being and as a photographer is about spreading this healing power I believe exists in Photography, telling people's stories and improving their perception of themselves.

I always have two main things in mind when I start imagining and creating a singular image or a series of images: being able to tell a powerful story with a strong emotional impact and immortalise it; being able to create beautiful images with some poetry in it.

I try to do it in all kinds of photographic work, involving people or not.

But the biggest challenge is always the ones involving people, their stories, their insecurities or ideas. It is not an easy task because, besides the natural anxiety of the creative process, there are other delicate variables such as the vulnerability to which is the subject and the photographer are exposed to. With a genuine therapeutic goal, it is so important that both photographer and the person being photographed are aligned and connected, about what beauty means, about the story they want to tell, and about the emotions they want to see reflected in the final work.

And isn’t beauty more like a feeling? We can try to define what it is, but beauty is subjective, constantly reinvented and impossible to dissociate from the story and the moment that surrounds it.

I believe that going for a photo shooting and telling your story is a celebration of yourself.

No money on this planet will take you back to the moment you are living now. But we can freeze it with photographs that will preserve your moments, your memories and the way you look, so they can be cherished and shared later.

I am proposing 3 main Photographic experiences:

- "Spotlight" is about bringing out the best in you, at your full potential, raising your self-esteem and allowing you to go back to it whenever you're having a bad day. Photo sessions can be planned with styling advice, hair and make-up.

- "Story" is about capturing and immortalising your connections and emotions to places, and mostly to people around you. The perfect photoshoot to celebrate life with your family, your friends or even your pets.

- "Scanning" is a documentary-style family photography, about real daily life with no poses or production. Just a real reflection of your family with its adorable “imperfections”, and those ordinary moments that will be mostly missed one day. Yes, unmade beds, toys on the floor and messy hair are welcome.

Feel free to email me to know more about these experiences and to book yours.

This is my leap of faith. :)

Sara

Family Documental Photography

Fotografia documental de família.

É um tema que desperta em mim um imenso entusiasmo e a motivação para produzir imagens.

Documentar histórias e salvaguardar as memórias. 

Sempre guardei documentos. Fotografias, cartas, notas. Não sou apegada a "coisas", e até tenho uma tendência cada vez maior para me livrar de tudo aquilo que não preciso. 

Mas as fotografias, as notas e as cartas, sejam manuscritas ou digitais, são um rasto da vida que tento preservar de forma cuidada e organizada. São os nossos testemunhos, são aquilo que ficará de nós.

No decorrer do meu projeto pessoal "Viagem no Tempo" tenho andado a construir o arquivo digital das fotografias que habitavam numa caixa, em casa da minha avó. Decidi reavivar aquelas memórias. Mexer, remexer, rir e chorar. Conservá-las de forma segura, para que jamais se percam. Permitir que se multipliquem por todas as pessoas da família que as queiram voltar a sentir, aproveitando as benesses da era digital... 

Naquela época as fotografias tinham outro valor. Hoje são fáceis, descartáveis, esquecidas em memórias externas sem legenda. Antigamente, oferecer uma fotografia a alguém era sinal de grande amizade e respeito. Era algo mesmo muito importante.

Em quase todas as imagens se encontra escrito no verso: “Ofereço esta fotografia como sinal da minha amizade". É algo que parece ter o seu quê de solene.

Para mim ainda tem.No que diz respeito a este tema cada imagem que capto é com a mais solene das intenções… a de contar uma história que o tempo não apague.

 

"Ela ama fotografia pois ela ama a ideia de paralisar o tempo. Para ela o amor é a vida fotografando a gente." 

Frase de  Zack Magiezi enviada por um amigo que me conhece tão bem 😉

 

Family Documental photography.

It is one of  the issues that mostly arouses my enthusiasm and motivation to produce images.

Documenting stories and safeguarding the memories.

I always kept documents. Photographs, letters, notes. I am not attached to material stuff, actually I have this urge to get rid of anything I don’t need.  

But photographs, notes and letters, whether handwritten or digital, are a track of life I try to preserve in a  careful and organized manner. It is our testimony, what will remain of us.

Working on my personal project “A Journey back in Time" I've been building the digital archive of photographs that dwelt in a box in my grandmother's house. I decided to revive and stir those memories. Laugh and cry with it. Keep them safely, so they are never lost. Allow them to multiply between all the family members that wish to feel them again, enjoying the blessings of the digital age ...

At that time the photographs had such a meaningful value. Today photographs are sometimes too easy, disposable, forgotten in external memory devices without subtitles. Back in those days, offering a photograph to someone was a sign of great friendship and respect. It was something really important.

In almost all the prints, I found something like this, written on the back: "I offer this photograph as a sign of my friendship" It's something that seems kind of solemn.

For me it still is.  Regarding this matter, I capture images with a solemn intention…  to tell a story that time will not erase.

Viagem no tempo / A journey back in time

"Pelos melhores ou piores motivos, a família carrega-se toda a vida, ou por várias vidas, mais ou menos no coração, ou mais ou menos às costas. "

"For better or worse reasons, we carry family for a lifetime, maybe for several lifes, more or less in the heart, or more or less on our back."

A história de uma família tem um antes e um depois que não se sabe onde começa e onde acaba… contam os antepassados, as memórias inconscientes da infância, as aparentes banalidades do presente, os sonhos que depositamos no futuro dos descendentes, os que ficam para continuar a história…

Muitas pessoas dizem que a família não se escolhe. Mas muitas acreditam que se escolhe ao mais ínfimo detalhe, noutra dimensão. 

Qualquer que seja a crença de cada um, poucos negarão o “peso” da família nas suas vidas. Pelos melhores ou piores motivos, a família carrega-se toda a vida, ou por várias vidas, mais ou menos no coração, ou mais ou menos às costas.

Até onde consigo recuar, encontro na minha avó um “princípio”. 

Ela tem um nome invulgar - Imponina. Sempre achei que Imponina vem de Imponente. De alguém que se impõe. No caso dela, uma alma doce que a vida tentou amargurar mas não conseguiu. Alguém que se impôs às muitas contrariedades que encontrou, alguém que se impôs ser feliz, mesmo carregando o peso de um início de vida difícil. 

Construiu uma enorme e unida família, e viveu um casamento longo e feliz. Mimou as filhas, os genros, e os tantos netos, sempre com uma entrega incondicional. 

Na sua pequena e simples casa vivi muita da minha infância, e com pouco fazia-se a festa, porque amor e alegria nunca faltaram. Foi uma casa cheia, foi uma casa feliz. E parte de mim formou-se ali.

Hoje esse clã já não partilha da união de outros tempos. Uns estão longe, outros afastaram-se embora estejam perto, por razões que não importam tanto agora que os anos passaram.

O meu avô partiu, mas a Imponina continua a viver na sua casa. É acarinhada pelas filhas mas já não as consegue juntar todas ao mesmo tempo, como antigamente. Os netos seguiram as suas vidas, longe, também não se juntam, e visitam-na esporadicamente. A casa está vazia de gente. Mas cheia de memórias.

E eu decidi fotografar a casa, a Imponina, e as nossas memórias. Quero que permaneçam para sempre, não só na minha cabeça, mas também nas minhas imagens.

Este projeto conta comigo, com ela, uma câmera fotográfica e um tripé. No nosso “acordo” está também o meu compromisso de organizar e salvaguardar todas as fotografias antigas que ela tem atiradas para uma caixa. Uma caixa onde está a nossa história.

Ainda não sei o nome que este projeto terá como título, mas por enquanto gosto de lhe chamar “viagem no tempo”.

A family story carries more than what we can remember. It’s made of our ancestry, our unconscious memories, our apparently ordinary present, the dreams and hopes we nourish for our successors, the ones who will remain to continue our story. It’s hard to know where it began and where it will end.

Many people say that we do not chose family. But many believe that we accurately do, in another dimension.

Whatever we believe in, few would deny the "weight" of family in their lives. For better or worse reasons, we carry it for a lifetime, maybe for several lifes, more or less in the heart, or more or less on our back.

As far back as I can go, I find my “beginning” in my grandmother. 

She has an unusual name - Imponina. I always thought Imponina comes from “Imponente” (in portuguese). Someone who imposes. In her case, a sweet soul that life tried, but failed, to embitter. Someone who imposed to live a happy life, even carrying the weight of a difficult start. 

She built a huge and united family, and lived a long and happy marriage. Spoiled her daughters, her sons in law, and many grandchildren, always with unconditional love. 

In her small, simple house I lived a happy childhood, making the most out of less, and that’s an important part of who I became.

Today, this family no longer shares the union of those times. Some are far away, others live close but apart, for reasons that don’t matter anymore, now that the years have passed.

My grandfather died recently, but Imponina wants to stay in their home, as long as she can, even being on her own. She is nurtured by her daughters but no longer can join them all at once, as before. Grandchildren followed their lives away, don’t get together anymore, and visit her occasionally. 

The house is empty of people. But full of memories.

And I decided to photograph the house, Imponina, and our memories. I want it to last forever, not only in my mind but also in my photographs.

This project is about me, her, memories, a camera and a tripod. In our "agreement" I also committed to organize and safeguard all the photographs, postcards and letters she has tossed in a box for all her life. A box that holds all her / our, family stories.

I am not sure about the project’s name, but so far I like to call it “a journey back in time”.

In Between

“A prática das artes como rituais disciplinados de jogos de pintura, escultura, encenação, dança, criação musical, escrita e leitura de contos é e sempre foi um recipiente seguro, um instrumento apropriado na abordagem de temas existenciais, pathos e mistério.” 
Paolo J. Knill

A terapia através das Artes Expressivas auxilia o cliente/artista a encontrar o caminho para si mesmo, conduzindo a um profundo conhecimento do seu eu autêntico. Através da instrumentalização de forma integrada do Movimento, das Artes Visuais, da Música e da Poesia, com conhecimentos de Psicologia, Filosofia, Educação pela Arte e Sociologia, é promovido o crescimento e o desenvolvimento do ser humano.
Este projeto fotográfico nasceu da colaboração entre terapeuta (Joana Fins Faria) e fotógrafa (eu :)), acreditando que a visualização posterior das imagens acrescenta ao processo terapêutico, refletindo e materializando determinados registos emocionais.
 

O objectivo é que a arte seja um recipiente para o sofrimento do cliente/artista, dando depois lugar à alegria e à grandeza. O passo seguinte é um diálogo reflectivo, através da fotografia, onde é transmitido um sentido para a produção artística realizada. 

O projeto, intitulado “in between”, representa um momento de viragem na vida de uma pessoa. Nestas imagens é visível a intensidade destas sessões, que foram fluindo como “rituais” que materializaram e “expurgaram” uma dor associada a vivências passadas das quais a protagonista da história quis libertar-se. 

Numa fase posterior às sessões, a visualização das imagens reforçou a sua consciência para as decisões tomadas e marcou-a profundamente pois não tinha uma noção tão realista dos movimentos e expressões dos quais foi protagonista. Estas imagens, diz, "são a prova física das resoluções que tomei, daquilo que não quero e que quero para mim… são a materialização de um fecho de ciclo e de um ritual de celebração de um promissor recomeço."

Mais uma evidência do poder da fotografia, e das artes :)

Sobre Terapia de Artes Expressivas no site da Joana Fins Faria: www.joanafinsfaria.com

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Permitido Sofrer

Há cerca de um ano atrás comecei a desenvolver um projeto sobre um tema delicado e pouco explorado: a perda gestacional.

Falei com várias pessoas, li muitos testemunhos e fotografei mulheres que viveram este drama com grande intensidade e aceitaram dar a cara a esta forma de dor. Aceitaram representar os seus sentimentos através de imagens.

Como em qualquer outro processo, vão surgindo questões e vou deambulando entre pensamentos e dúvidas, até um dia se fazer luz.

Uma das minhas primeiras questões foi se  "explorar" este tema seria positivo ou negativo para as mulheres que se disponibilizaram a fazê-lo. Seria justo ressuscitar-lhes as memórias, esmiuçar a sua dor e recriar momentos traumáticos? 

Tive dúvidas sobre o "tom" final do trabalho. Inicialmente acreditei que a abordagem a seguir, para apelar ao apoio que esta causa necessita, seria o mais dura e crua possível. 

Nunca vou esquecer o dia em que se fez luz sobre estas incertezas. Um dia dei-me conta que o processo estava a ter um efeito terapêutico naquelas mulheres. Porque falar da dor,  expressá-la e representá-la através da fotografia funcionou como uma "limpeza da alma", um desabafo, e acima de tudo uma homenagem. Homenagearam-se a si mesmas e aos seus filhos. Dignificaram a sua perda e quebraram um silêncio que muitas vezes pactua com uma vergonha sem sentido.

Sem sentido, porque embora muitos possam não compreender, é legítimo amar um filho que não "nasceu". E essa foi outra das surpresas que tive. A chamada de atenção não foi dura, foi poética, bela. Este acabou por ser um projeto sobre a dor mas também sobre o amor. Honram-se esses sentimentos que nascem no ventre e não se apagam mais.  

Estas imagens representam a dor de mulheres que, em grande maioria, se sentem à margem de um processo de luto. Todas as mulheres que conheci, que viveram este tipo de situação, têm em comum um sentimento de vazio pela perda sofrida, e de solidão pela falta de apoio e compreensão dos outros. Essa dor só é libertada quando se permitem sofrer, chorar e amar.

Com o tempo, algumas mães aceitam e superam, mas nunca esquecem os seus meninos. Muitas vezes acreditam que eles são os seus anjinhos da guarda.

Este trabalho é para elas.

Foi hoje publicado no P3 uma parte do projeto. No meu site poderão ver mais imagens deste trabalho - "Permitido Sofrer"

Obrigada por lerem!

 http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/16426/aborto-mulheres-que-amam-quem-nunca-nasceu

Bedtime

A hora de dormir evita-se até ao limite. A criatividade floresce na hora de empurrar o relógio para trás. Invocam-se os medos do escuro e dos sonhos. Chegam de repente as dores num braço ou na garganta, que não se tinham manifestado antes da hora marcada… a hora de dormir. Até aquele vazio do “não, não tenho mesmo nada para contar”, se preenche de repente com um monte de histórias giras do teu dia. 

Depois de se esgotarem todas as tentativas, quase se esgota a minha paciência e, por vezes, a última palavra do dia acaba por ser mais assertiva e menos doce do que eu gostaria. 

E invariavelmente vou depois contemplar o teu sono sereno, e redimir o momento anterior, com outro “boa noite”, outro beijo, e outro agradecimento ao universo pela benção de vos ter na minha vida.

Antecipo o teu despertar rabugento, que no fundo eu também gosto porque não há nada que eu não ame em ti. Tu e eu com todas os nossos deliciosos defeitos, fazemos parte de um todo que é feito de amor incondicional.

Essa real e incontornável imperfeição de uma família não é muitas vezes retratada em fotografias. A tarefa de ser mãe e pai não se reflete apenas nas belas imagens feitas num estúdio, ou num parque com o sol do final de dia a dourar sorrisos amenos. É também a birra no supermercado, os dramas dos TPC’s, o mau comportamento à mesa e os dramas na hora de ir para a cama.

Sei que não gostas quando te fotografo zangada mas um dia vais querer saber como eras, como éramos, com tudo do melhor e do menos bom que vivemos. 

Há momentos que por serem tão banais, nunca são fotografados. São esses, precisamente esses, os que vão deixar mais saudades.

Por agora, bons sonhos princesa.

Self-Portrait

 

A auto-representação não é nada de novo… já existia antes da fotografia ser inventada, através da pintura ou do desenho. Hoje, a auto-representação está acessível a todos e, melhor ou pior, quase todo o ser humano gosta de se auto-retratar. Muito se fala do fenómeno “selfies”, frequentemente em tom de crítica. Excessos à parte, o que há de errado em querermos perpetuar instantes de nós mesmos e da nossa figura, seja ela qual for? 

A verdade é que existem alguns estudos psicológicos que apontam o auto-retrato como uma forma de terapia, através da qual uma pessoa é capaz de libertar emoções, ajudando à auto-descoberta, crescimento e maior consciência pessoal.

O auto-retrato é uma forma de expressão… por isso eu diria que se gostares da tua “selfie” seja instantânea ou encenada, seja à primeira ou à vigésima tentativa, seja no teu melhor ângulo ou no teu momento mais difícil… desde que te sintas bem e te aceites como és… não vejo nada de errado nisso.

Se achares que não gostas das tuas “selfies”, pede a alguém que retrate o que queres documentar, expressar, perpetuar… e partilha se isso te fizer sentir bem.

Believe in “yourself(ie)” accept imperfection, be real, be happy :)

Sara

Auto-representation is nothing new is it? Even before photography was born it was done through paintings and drawings. Nowadays, self-portrait is accessible to everyone and, better or worse, every human being feels the need to represent himself, right? There’s a big fuss about the “selfies’” phenomenon, usually in a depreciative way. Putting excess on the side, what could be so wrong about you wanting to perpetuate an instant of yourself and how you look (whatever that is)?

Actually some psychological studies point out self-portrait as a form of therapy, through which one can release and express emotions, and can reactivate the dialogue with our thinking mind to self-discovery and consciousness.

Self-portrait a form of expression… so if you like your “selfies”, whether it is an instant one made with your smart phone or a staged one you took some time to do….. whether you got it on the first try or after 20 times… whether it is your best angle or made at a difficult moment… as long as it makes you feel good… as long as you accept yourself as you are... it should´t be wrong.

If you don’t like the ones you do yourself then ask someone who’s able to bring out the things you need to express, document and immortalise, and shoot it for you. And then share it if you wish.

Believe in “yourself(i.e.)”, accept imperfection, be real, be happy :)

Sara

You Are Beautiful

Ando a ler sobre terapia através da fotografia. 

E com algumas ideias bem giras no "pipeline"… 

Não por coincidência mas porque as energias se atraem, recebo esta semana um pedido de alguém que me diz algo assim: “tive dois anos difíceis, e entre muitas coisas que preciso de fazer, quero ter retratos que me ajudem a levantar a auto-estima.” 

Primeiro, sinto-me muito privilegiada por ter sido escolhida para o fazer. Obrigada!

Segundo, sinto que este poderá ser um novo projeto ao qual me dedicarei em breve ;)

“Photo therapy techniques act as catalysts to deepen insight and enhance communication during therapy … Building self esteem using photography is thinking, talking, and doing.  Skills are reinforced by learning and practicing in a safe, creative environment.” Valencia Agnew

YouAreBeautiful_saracorreiaphotography

Magnólias

As magnólias são mesmo as minhas preferidas. São escandalosamente vistosas, brotam de repente com toda a força, sem esperar pelos dias amenos. Elas simplesmente não se importam que ainda esteja frio, chuva e nuvens cinzentas no céu. As magnólias são a promessa da Privamera, e chegam sempre nesta altura do ano, para nos lembrar, a nós que já estamos com a pele cinzenta e o corpo dorido de tanto se encolher do frio, que o Inverno está a chegar ao fim… 

Não consigo deixar de sorrir sempre que passo por elas…

magnolias_saracorreiaphotography

Uma mensagem especial / A special message

Hoje vou escrever-vos sobre o joão. E peço-vos que leiam até ao fim e com o coração, não apenas com os olhos. Sei que é muito mas é impossível escrever pouco sobre o João.

Tive o privilégio de me cruzar com este menino, e desde então todas as semanas me surpreendo e me emociono com esta vida tão especial. Estou a trabalhar num projeto fotográfico documental, sobre a vida do João e acompanho-o de perto a ele e à sua família. Foi o João que me convidou a fazê-lo porque acredita na fotografia. O João não fala e comunica com o mundo através da escrita. Acredita nas formas alternativas de comunicação e escreveu-me que a fotografia é uma delas.

O João tem um sonho… recuperar das limitações físicas que o prendem, para poder vir a ser médico. Quer ser um médico “holístico” e diz ter a capacidade de curar as pessoas através de uma energia universal à qual acede. Não lê livros nem vê televisão mas escreve sobre tudo o que acontece no mundo, fazendo verdadeiras dissertações sobre o futuro da humanidade, educação, política, relações afetivas e espiritualidade. Escreve sobre todos estes temas com uma rapidez e lucidez estonteantes, como se realmente tivesse acesso a outra dimensão de conhecimento e consciência que nos está barrada a nós, seres “normais”. O seu livro, lançado pela Porto Editora em 2014, foi muito falado nos meios de comunicação social, e está à venda para ajudar esta causa. Com um brilhante prefácio do Valter Hugo Mãe, este livro traz mensagens valiosas a todos os seres humanos que se entreguem a ler, do João e da mãe do João. Alguns terão questionado a validade deste livro, e não os julgo, mas a minha presença na vida do João como espetadora desta verdade improvável, obriga-me a dizer-vos que é o João o autor de tais palavras sábias. 

Deixo-vos o link para aceder ao livro e desafio-vos a adquirirem: (estará brevemente disponível em inglês): http://m.wook.pt/ficha?id=15723883

Deixo o link para o crowdfunding do João, uma ferramenta lançada com o objetivo de angariar fundos que tornem possível a manutenção das terapias do João e do seu programa alimentar especial, que somam custos muito elevados e impossíveis de sustentar sem apoios alheios. Sem estes investimentos o João não poderá continuar o seu caminho e por isso contamos com o apoio de todos os que acreditam nele e na sua missão no mundo. Partilhem por favor, este link, vamos fazê-lo chegar a todos os cantos do mundo: http://www.gofundme.com/ffuhto?fb_action_ids=10203816889812942&fb_action_types=og.shares

Link para a página de facebook do João onde escreve textos com frequência: https://www.facebook.com/joaocarlos.cabanoxhassis

Excerto de um texto escrito por ele, para mim: 

“Eu quero que a Sara faça o trabalho.

Acho que temos que explorar múltiplos aspetos e a fotografia é um deles. O projeto vai continuar a crescer… 

… O que a fotografia capta são momentos de intensidade emocional. A Sara tem na objetiva o poder de contar histórias e captar a alma sem palavras. 

As almas comunicam sem palavras mas o coração tudo entende.

O coração, como já falei, é a consciência, e as pessoas ligam-se e desligam-se através da energia que ele emana.

O que a Sara tem que demonstrar é que a palavra não é um meio absoluto de comunicação.

O autismo obriga os seres humanos a abrir o coração e a aprender a comunicar através de outros meios que o ser humano também tem.” 

João, 13 de Janeiro de 2014

 

Obrigada por lerem até ao fim

Sara

 

Today I want to write about João. Please read it all with your heart, not just your eyes. I know it's a lot but it is impossible to write less about João. 

I had the privilege to meet this boy, and since then he won’t stop surprising me every week and making me feel emotional about him. I am working on a documentary photographic project about João’s life and following him and his family closely. It was him who invited me to do so, because he believes in photography. João does not speak at all and communicates with the world through writing. Therefore, he believes in alternative forms of communication and wrote to me that photography is one of them.

João has a dream ... to recover from physical limitations that hold him back, order to become a doctor. He wants to be a "holistic" doctor and claims to have the ability to heal people through a universal energy that he can access. He doesn’t read any books or watches TV, but writes about everything that happens in the world, making amazing dissertations on the future of humanity, education, politics, personal relationships and spirituality. He can write about all these issues with a such quick and stunning clarity, as if he really has access to another dimension of knowledge and awareness that is the barred to us, "normal" beings. His book, published by Porto Editora in 2014, was advertised in the media, and its sales are supporting this cause. With a brilliant preface from Valter Hugo Mãe, this book provides valuable messages to all human beings that are open to read it, from João and his mother. 

Some have probably questioned the validity of this book, which in a way is expectable, but my presence in João’s life witnessing this unlikely and magical truth, makes me want to tell everyone about the veracity of it: it is him the author of every word you will read, even though I can not explain to you where all this knowledge is coming from. 

Here’s the link to access the book and I challenge you to acquire : (soon available in English):http://m.wook.pt/ficha?id=15723883

This is the link to João’s crowdfunding, a tool launched to raise funds that can make it possible to maintain João’s therapies and his special food program. João’s needs sum up very high monthly costs, impossible to sustain without outside support. Please share this link, make this voice reach all corners of the world. Let’s help João and make it possible for him to accomplish his mission in this world: http://www.gofundme.com/ffuhto?fb_action_ids=10203816889812942&fb_action_types=og.shares

Link to João’s facebook page, where he often writes: https://www.facebook.com/joaocarlos.cabanoxhassis

Part of a text João wrote me:

"I want Sarah to do the work .

I think we have to explore multiple aspects and photography is one of them. The project will continue to grow ...

... What the photograph captures are moments of emotional intensity. Sara has, in her lengths, the power of storytelling and capture the soul without words.

The souls communicate without words and the heart understands everything.

The heart, as I said before, is consciousness, and people turn up and turn off through the energy it exudes .

What Sara has to show is that the word is not an absolute means of communication.

Autism compels human beings to open their hearts and learn to communicate through other means that humans also have. "

João, 13th January 2013

 

Thank you for reading

Sara

 

MeninodeDeus_JoãoCarlosCosta

1975

E é isto... estamos mesmo na reta final rumo aos 40 anos, esse número "assustador". Lembro-me quando os meus pais fizeram 40. Para mim eram velhos, e agora tenho os meus filhos a acharem o mesmo. 

Sempre me incomodou um bocado esta coisa dos anos passarem sem pedir licença, como se nos atropelassem. Quando fiz 30 doeu mas nem imaginava que a partir daí, com a invasão dos filhos, a montanha russa ia começar a acelerar a fazer loopings sem avisar. Às vezes dou por mim a pensar "Esperem lá, parem tudo! O que aconteceu? podemos fazer um pause?" 

Dizem que quanto mais a vida é preenchida, mais passa a correr... e eu sinto que passa a voar. Ainda por cima não posso fingir que não sei, porque tenho uma filha que já calça quase tanto como eu e que todos os dias se gaba que está quase da minha altura, para me lembrar que... o raio do tempo realmente nos atropelou.

Mas eu já não me importo. Não me importo, porque não estou sozinha... tenho uma coleção de cromos de 1975, e outros de colheitas próximas dessa, que estão sempre comigo. Somos um núcleo duro, que avança a par e entre nós ninguém está velho demais nem novo demais. 

Além disso, é inesperadamente fabuloso estar aqui! Não porque tenho mais certezas, ou mais respostas. Mas porque encaro tudo com mais serenidade. Porque encolho os ombros e continuo sem permitir que coisas "menores" estraguem o meu dia. Sou naturalmente mais seletiva em relação às coisas com que me preocupo, e às coisas que me tiram do sério. Consigo selecionar as "guerras" que quero travar e escolher ser feliz em vez de ter razão quando simplesmente não vale a pena. Porque aprendi a dizer não. Porque aprendi a gostar mais de mim própria. Porque aprendi a lidar melhor com a incerteza. Porque passei a achar que a imperfeição tem a sua graça. Porque finalmente percebi que a viagem importa mais do que o destino e que não faz mal não ter a certeza de onde vamos chegar. 

Este ano vamos chegar aos 40. É só um número queridos... Felizmente vamos com um sorriso na cara, muita calma na alma, alegria no coração e um pouco de loucura na cabeça! 

Sara

 

Bom dia com um pouco de poesia

"...Sentiu uma coisa boa dentro de si, uma certeza de que nem tudo se perde na confusão da vida e que uma vaga mas imperecível ternura é o prémio dos que muito souberam amar." 
Rubem Braga

 

Finalmente o website

Há muito tempo que andava a estruturar o website.

Não só para comunicar com o "mundo" através da web, mas também para me obrigar a organizar o meu trabalho, a selecionar as imagens que significam mais para mim, a dividir as coisas por temas... sim, a ser mais organizada :-)

Não está pronto, nem nunca estará... mas já reune algumas coleções que gostava de partilhar contigo.

A fotografia não é apenas técnica, é um conjunto de muitos fatores que fazem com que uma imagem possa interessar a alguém. Algumas têm um significado para mim, que podem não ter para ti, mas espero que, no geral, gostes de conhecer o meu trabalho e que em alguma imagem as nossas sensibilidades se encontrem.

Gosto de muitas áreas da fotografia e aqui vou tentar partilhar um pouco de tudo. Com o tempo, é natural que o meu caminho passe por uma concentração em uma ou duas áreas específicas. Mas espero, mesmo assim, ter tempo para continuar a captar um pouco de tudo aquilo que me fizer feliz.

Também tenho um fraquinho pela escrita... não uma escrita elaborada nem cara, mas sim a partilha do que vai no coração.

Espero que te sintas à vontade, aqui, para fazer o mesmo :-)

Até já!

Sara

photos and letters